quarta-feira, 17 de março de 2010

TESES DECADENTES REAFIRMAM A LÓGICA DO TURISMO ELITISTA

TESES DECADENTES REAFIRMAM A LÓGICA DO TURISMO ELITISTA

João dos Santos Filho

O processo histórico envolve todo e qualquer fato social e, portanto, deve ser o suporte que calibra a formatação dos instrumentos de racionalidade do pensamento científico, isso porque, ele tem um percurso histórico de nascimento, adaptações e ajustamentos presentes em sua processabilidade dialética, com isso, não acreditamos no acaso e no estudo isolado do fenômeno ou do seu aparecimento repentino. Para tudo existe uma lógica histórica explicativa, produto da luta de classes, pois é esta que movimenta a sociedade no campo cultural, econômico, ideológico e produz uma estratificação social especifica.
Diante desta formulação de princípios destacamos que a realidade é entendida segundo nossos interesses econômicos ou de classe, afetando diretamente a elaboração das Políticas Públicas. Nesse caso, nos referimos como o Estado esboça e encaminha os traços iniciais de uma Política Nacional de Turismo com base na tradição patriarcal e elitista brasileira. Pois desde a fundação do Touring Club do Brasil em 1923, este começou a desenvolver a criação de cruzeiros turísticos para uma elite nacional e estrangeira pela Amazônia, ávida por conhecer seu país e fazê-lo conhecido pelos estrangeiros.
Iniciam-se assim uma proposta de um turismo dirigido as elites, pois no começo era uma burguesia endinheirada que já cultivava o gosto por um turismo exótico e até onde seu dinheiro permitisse a exclusividade. Pois o turismo de massa vinha engatinhando segundo as conquistas econômicas e sociais das classes trabalhadoras pelo desenvolvimento industrial, no Brasil por ocasião do centenário da Independência, surgem os primeiros grandes hotéis do Rio de Janeiro, e São Paulo o Turismo de Águas Termais combinado com o aparecimento dos grandes cassinos.
Em 1939 o Estado getulista cria dentro da Divisão de Imprensa e Propaganda –
DIP a Divisão de Turismo, o que demonstra que o fenômeno do turismo serviu como instrumento ideológico para manter o controle das classes populares e determinar o uso do seu tempo livre segundo interesse da classe dominante. Com isso, podemos afirmar que o turismo foi gestado dentro de princípios dos lazeres burgueses e permanece com esse perfil classista.
A Política Nacional de Turismo aprimorou ainda mais essa atuação elitista, pois apesar de existir a EMBRATUR como órgão responsável pela divulgação do turismo brasileiro no exterior. E o Ministério do Turismo como instrumento ordenador da política nacional de turismo, na prática todo peso do esforço no campo do turismo pelo Estado é voltado para o turista estrangeiro.
Em primeiro lugar podemos afirmar que uma pequena parte do trade de turismo, e por sinal aquela que administra os grandes empreendimentos no campo da hotelaria, gastronomia, entretenimento e transporte detém a hegemonia política das decisões de como deve ser encaminhada a Política Nacional de Turismo. Esse monopólio de poder traduz que os interesses de uma proposta de turismo esta voltada para o turista estrangeiro, pois é este que interessa as grandes corporações da “indústria do turismo”.
A tese de que o turista estrangeiro deve ser o timoneiro da Política Nacional do Turismo e que os recursos destinados a essa atividade devem ser alocados para melhorar a infra-estrutura de sua hospitalidade. Para poder estender sua permanência em território nacional e com isso aumentar seus gastos.
O que me desagrada nessa tese é seu princípio elitista de ver o turismo, bem como, torna o turista estrangeiro uma mercadoria a ser consumida. Não havendo nenhuma preocupação com o impacto cultural e econômico que o mesmo produz na sociedade local e nacional, e como isso acaba afetando o desconsiderado turista nacional. Que muitas vezes fica na fila de espera, aguardando um restaurante, uma hospedagem, até que o turista estrangeiro desocupe um desses equipamentos, ou ainda constatar que o hotel, o passeio programado, o restaurante da moda tem preferência pelo estrangeiro.
O crédito que o Estado destinou ao turismo por meio da Caixa Econômica Federal favoreceu em sua maioria ao mega investidor da área, desde as grandes redes hoteleiras até agencias de turismo, mas tudo parece volatilizar-se, pois não existe um Plano Nacional de Turismo pensado a um planejamento global, em que organize racionalmente a aplicação dos recursos financeiros. O que há, é um imenso jogo político de interesses pessoais, em que vence aquele que detém mais quantidade de capital e obviamente possui um equipamento de turismo de ponta.
Temos a destacar que as dotações financeiras destinadas ao turismo pelo Estado independente de serem ainda modestas em comparação a outras atividades econômicas, são despossuídas de qualquer direcionamento planejado, isto é, seu uso é aleatório atendendo a interesses particulares e políticos.
Existe outra tese, que faz da estrutura administrativa estatal promiscua, pois cultua uma política baseada em favores das emendas parlamentares consignadas por ações eleitoreiras e paroquiais, acobertadas por práticas ditas “legais”, em que o Ministério do Turismo coordena e incentiva políticos a incluir pedidos de verbas para o turismo junto ao orçamento da união. Esse procedimento favorece uma política patriarcal e de compadrinho muito a agosto da tradição histórica brasileira, completamente estapafúrdia.
Essa prática defendida pelos responsáveis do turismo transformou o Ministério do Turismo em um local em que os acordos, arranjos e decisões obedecem ao gosto do parlamentar que solicita verbas para festas pessoais, portais de turismo que não levam a nada, verdadeiros elefantes brancos. Uma vergonha para o povo brasileiro e um incentivo a corrupção em que o Estado via Ministério do turismo acaba sendo cúmplice.
Leitor veja, o Ministério do turismo conseguiu por meio da prática lobista, junto aos deputados carrear para o turismo as emendas parlamentares. Isso tornou o Ministério do turismo em um grande empresário de duplas sertanejas, cantores desconhecidos, mas amigos de deputados. Festas inventadas e religiosas, feiras sem qualquer valor econômico.
Esse processo estanca qualquer possibilidade de elaboração de um Plano Nacional de Turismo articulado a uma proposta de desenvolvimento econômico, pois quem manda é o interesse político de cada deputado em comum acerto com a pasta do turismo, que para conseguir verbas para o turismo não se preocupa com a ética política. Mas, que turismo!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

TORTURA NUNCA MAIS: A HISTÓRIA OFICIAL NÃO PODE VENCER A HISTÓRIA REAL

TORTURA NUNCA MAIS: A HISTÓRIA OFICIAL NÃO PODE VENCER A HISTÓRIA REAL
João dos Santos Filho

Confesso ser esta uma temática a qual descrevo com um prazer de intelectual militante da época de 1970, e saudosista do movimento estudantil no tempo da clandestinidade, que lutava contra o golpe e a favor da identificação e julgamento daqueles que utilizavam da tortura, seqüestro e do assassinato como forma de conter as lideranças democráticas sindicais, estudantis, intelectuais, religiosas e políticas. Buscando meios para se opor aos desejos irracionais de um modelo econômico subordinado a um comando de guerra coordenado pelo Capital, chamado Operação Condor contra todos aqueles que ousavam discordar das ditaduras implantadas no continente Latino.
Confesso que por ser marxista desde o segundo grau, me aproximei de professores que me encaminharam para a leitura da dialética histórica, apreendendo desde cedo o disfarce para ler o Manifesto Comunista encapado em papel de pão. Ter recebido aulas de Ciência Política por meio da leitura de dramáticos romances da literatura latina americana, pois os clássicos da teoria política eram proibidos, como também, fui salvo de ser preso por um delegado maçom da Policia Federal do Aeroporto de Congonhas, em vôo vindo de Buenos Aires por trazer na bagagem livros de Karl Marx e Engels.
Confesso ter vivido um dos melhores períodos de minha vida, como estudante e
amigo dos professores Florestan Fernandes, Octávio Ianni, por ter a sorte de ser vizinho de quarteirão desses intelectuais. Reafirmo que minha atitude política sempre foi de crítica ao golpe militar de 1964 e por ter presenciados fatos que ocorreram no interior da PUC/SP. Éramos estudantes de Ciências Sociais no começo dos anos 70 e tivemos professores que foram retirados pelo DOPS da sala de aula e estão sumidos até hoje. Assistimos a defesas de tese no teatro Tuquinha em que foi invadida pela policia militar e pelo DOPS. Convivemos com os discursos contundentes da madre católica Cristina a psicóloga das Sedes Sapientiae militante implacável contra a ditadura militar.
Confesso que foi um período que havia necessidade de permanecer na clandestinidade, pois era a forma de salvar e resguardar nossas vidas, “contra a idéia da força usávamos a força das idéias”. Estudar Marx era e continua sendo uma necessidade prioritária, para enfrentarmos à repressão, alimento que nos dava força para visualizar uma saída no fim do túnel.
Como marxistas permanecemos mais convictos em seus princípios ontológicos e entendemos que o filosofo húngaro Georg Lukács faz uma leitura da obra de Marx que permite desestalinizar a compreensão do marxismo, desarmando a esquerda stalinista - mecanicista e vulgarizando o seu discurso de senso comum e acusativo da direita com fortes traços de neofobia.
Entendemos que a sociabilidade de um grupo social se planifique pelos níveis de tolerância que ela consegue ministrar na leitura dos fatos sociais, em especial no jogo da luta de classe. O equilíbrio de uma sociedade se mede pelos graus de tolerância política, econômica e social que a mesma apresenta, quando essa normalidade histórica é quebrada é porque uma classe quer impor de forma autoritária sua visão de mundo ao resto da sociedade.
Quando isso ocorre chamamos de ditadura, implanta-se um Estado fascista em que as armas de guerra são colocadas para garantir um novo ciclo de acúmulo de capital material e espiritual. Esse processo na América Latina ocorreu como expressão máxima de agressividade aos direitos humanos, em que torturados civis e militares nacionais e estrangeiros praticaram uma série de atrocidades.
Julgar esses algozes ensinados pelos mentores da Escola Superior de Guerra é dever do Estado brasileiro, colocar a verdadeira história em oposição à história oficial. A direita tenta justificar o injustificável, inventou até um pseudo-intelectual que afirma que o processo pelo que o Brasil passou deveria chamar-se a “Dita branda”, pois seria um erro condenar os militares. E parece que assim pensam desde o começo, pois todos os torturadores foram condecorados com medalhas de bravura e subiram na hierarquia militar.
Por isso leitor lutar pelo julgamento e condenação dos torturadores é um dever humanitário e histórico para as futuras gerações de brasileiros.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

MELHOR DO PAÍS É O POVO BRASILEIRO: VOCÊ ACREDITA NA EMBRATUR?


MELHOR DO PAÍS É O POVO BRASILEIRO: VOCÊ ACREDITA NA EMBRATUR?

João dos Santos Filho

Desde o momento que tomei conhecimento do resultado da pesquisa encomendada pela EMBRATUR ao Instituto Zaytec, intitulada o “Perfil do Turista Estrangeiro e Imagem do Brasil”. Venho tentando saber mais do referido trabalho, qual foi o projeto elaborado, o problema destacado, a problemática delimitada, a construção e seleção de hipóteses, a metodologia utilizada, a construção de objetivos e a elaboração do questionário. Na verdade tenho buscado entender o tratamento científico dispensado aos dados coletados dessa pesquisa, pois há resultados extremamente inéditos e inesperados diante da percepção que o turista estrangeiro tem sobre o Brasil.
Mas até o presente momento desconhecemos por completo a metodologia utilizada ou qualquer outra informação desse discutível trabalho. E se enganam aqueles que pensam que esta minha preocupação é mera implicância de alguém crítico a “Política Nacional de Turismo”. Nosso questionamento se deve a essência das pesquisas de opinião que podem até de forma involuntária levar a constatações equivocadas ou errôneas.
O filósofo Pierre Bourdieu acredita que a pesquisa de opinião pública apresenta sérios limites, pois banaliza as sondagens e possui pouco rigor científico em sua execução, bem como, não podemos supor que a opinião esteja ao alcance de qualquer indivíduo e que todas têm a mesma opinião ou tenham de fato interesse sobre o assunto. Demonstra que as pesquisas desse tipo em turismo são questionáveis e passíveis de erros qualitativos em razão da hegemonia dos dados coletados.
Devemos esclarecer que os resultados dessa pesquisa, afirma de que o “turista estrangeiro mais gosta é do povo brasileiro”. Essa conclusão carrega um conjunto de impressões subjetivas e atitudes políticas de cunho ideológico que quando explicitas em sua essencialidade pode revelar fortes preconceitos, tais como:
1. Gosta do povo brasileiro por achá-lo exótico, e resultado da miscigenação com o europeu, africano e índio, acreditando de forma eurocentrista que a ascendência genética predominante destacada foi dada pelo “colonizador (explorador) europeu”;
2. Imigrantes brasileiros que moram na Europa, sabem que a comunidade européia em sua maioria, com destaque para a Espanha e Inglaterra possui um enorme preconceito xenófobo para com os povos latino americano;
3. Há agências que organizam os vôos charter oferecendo mais de um tipo de pacote para o turismo sexual. Os non-stop party, em que o turista desembarca sem nenhuma reserva de hospedagem, disposto a realizar sua fantasia sexual, pois para ele aqui tudo pode. Fica confinado em uma espécie de hotel de fachada, mas na verdade são casas de sexo especializadas em adolescentes;
4. As mulheres são oferecidas aos turistas estrangeiros por taxistas quando desembarcam ou pelo próprio agente de viagem, barraqueiros e vendedores eventualmente funcionam como intermediários. Em geral, não recebem nada pela indicação, mas a menina vira uma espécie de "parceira" daquele que a indicou, ela vai recorrer sempre a esse taxista para as corridas maiores, ela vai fazer seu cliente consumir na barraca de praia. Constituem-se em um comércio silencioso e criminoso regado muitas vezes pela droga;
5. Para burlar a fiscalização, muitos turistas acabam se hospedando em flats, casas de veraneio, bordéis ou alugam apartamentos, em que a entrada é menos fiscalizada e o suborno do porteiro é bem mais fácil;

Esses motivos nós mostram uma percepção completamente diferente do turista estrangeiro para com o povo brasileiro, pelo menos aquela que já havíamos comentado em artigo escrito em 2000 “Carta ao excelentíssimo presidente da República” o qual passo a transcrevê-la em parte: http://www.revistaturismo.com/artigos/presidente.html
Lembramos que a EMBRATUR serviu também aos interesses do Brasil ufanista na década de 70, divulgando a noção de um país de mulheres lindas, mulatas (de Sargentelli e Joãozinho 30) semi desnudas, sedutor (marketing que muito tempo serviu de produto de divulgação para a propaganda, via filmes, pôster e folders enviados para o exterior), ordeiro, pró-americano e anticomunista para o mundo (explicitado pelo apoio e a participação da EMBRATUR com seu escritório em New York, se justifica pela intensa demanda de participação em feiras e atividades culturais no território americano). O marketing usado pela empresa acabou timbrando uma imagem veiculada no exterior pela ideologia de "lugar de sexo fácil", como descreve em sua excelente tese de mestrado a professora Rosana Bignami Viana de Sá, quando afirma:
A imagem do paraíso não se reduz à idealização da selva primordial em seus aspectos de flora e fauna. Ela adquire um outro significado que a relaciona ao pecado original e o país acaba por ser conhecido como o lugar do sexo fácil e barato.
Mesmo aos olhos do observador pouco atento, é óbvio a tentativa de atrair turistas ao Brasil através do uso de imagens de belas mulheres e com referências ao apelo sexual.

Como também, a autora menciona o que se publica no exterior sobre o Brasil, no caso ela utiliza-se da reportagem de um jornalista italiano referente a um artigo chamado "Le mete eccitanti d'inverno" da revista Tutto turismo, em que relata os seguintes comentários do repórter:
" Para os jovens é fácil encontrar companhia, as mulheres brasileiras não se fazem de difícil, obviamente quando elas têm vontade. Porém, vale a pena lembrar que o Rio é a cidade onde se encontra o maior número de prostitutas e de homossexuais em todo continente americano."
A esse exemplo, poderíamos arrolar outros mais, pois a imagem que a mídia nacional fez no exterior sobre o Brasil deixou uma marca no campo da sedução, em que belas praias, mulheres e o exótico devem ser repensadas, principalmente pela EMBRATUR, que apesar de ter amenizado essa situação, tornando-se mais cuidadosa com seu material de propaganda promocional enviado ao exterior, o problema hoje adquiriu dimensões alarmantes.
O fluxo de turistas estrangeiros que chegam ao país em busca do turismo sexual com adultos e crianças é imenso. O equacionamento desta questão passa pela existência de um trabalho policial preventivo nos aeroportos, rede hoteleira e taxistas. Acompanhado de um grande programa educacional em que a EMBRATUR deveria em conjunto com as operadoras nacionais e estrangeiras mostrar as complicações jurídico-legais ao turista e a empresa.

Não podemos negar que o Brasil esta sendo conhecido no exterior como uma potencia emergente, a economia estável, a descoberta agora anunciada do Pré-sal, um crescimento pós-crise superior a muitas outras nações, adquirindo respeito no trato do meio ambiente e uso de combustível renovável, se constituí em uma liderança política e econômica junto aos países de todos os continentes.
Obviamente que possuímos ainda profundas mazelas oriundas das desigualdades profundas, bem como, criadores de uma Política Nacional de Turismo elitista voltada para o turista estrangeiro, que há décadas alimentou a venda do turismo brasileiro acoplada à imagem da mulher brasileira.
O Brasil necessita mudar e tem mudado, mas duvido, que essa pecha tenha deixado de existir, por isso, enquanto não tivermos acesso à pesquisa em questão, seremos um crítico a essas pesquisas mágicas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

MEMÓRIA CURTA ACELERA A IDEOLOGIA DOS BORRA BOTAS I


MEMÓRIA CURTA ACELERA A IDEOLOGIA DOS BORRA BOTAS I


João dos Santos Filho

Escrever sobre a história brasileira requer equilíbrio, racionalidade e criticidade, bem como, ter consciência do lado em que o pesquisador se coloca como narrador dos fatos. Obviamente toda história é ideológica, como diz Georg Lukacs “não há ideologia inocente”, portanto, querer achar culpados sem, contudo compreender as determinações sociais é praticar a anti-história ou transformá-la em tragédia ou comédia como diria Karl Marx.
A memória histórica de um país deve ser preservada, com isso quero dizer que a mesma deve ser resultado de um processo de recordação constante, patrocinado pelo Estado e instituições que tem o dever de repassa - lá, ou melhor, inculcá-la em todas as gerações como patrimônio da memória histórica de um povo.
Retratá-la como história da conspiração de uma suposta armação maquiavélica em que nós somos os puros e ele é o vilão, se constitui em um tratamento hegeliano de entender a história. Com isso, reafirmo que o tratamento que alguns borra botas dão ao presidente Lula é deplorável como também lamentável.
Podemos culpar o Lula por inúmeras razões ideológicas de corte partidário (os pressupostos doutrinários que sustentavam originariamente o Partido dos Trabalhadores – PT), principalmente os princípios que serviram para maximinizar a maioria da vontade dos brasileiros, quanto o que seria fazer política diferente, ou seja, voltada para as classes populares, foi mantida. O que não foi mantido foram os espaços para a luta pelo socialismo, este foi nacionalmente e internacionalmente questionado com base nos resultados do socialismo real, que não tem nada a haver com o socialismo cientifico.
Podemos culpá-lo também, por desenvolver uma política assistencialista que alimenta um populismo de “toma lá, dá-cá,” como comentam os borras botas de plantão, entretanto, esquecem que o Brasil possui uma enorme população passando fome que esta excluída das coisas mais básicas como saúde, educação, alimentação e dignidade. Esta comprovada por pesquisas, que o programa Bolsa Família alterou significativamente o quadro de miserabilidade de enorme parcela da população que se encontrava excluída da referencia de cidadania. Para um problema endêmico de pobreza o combate é no primeiro momento o assistencialismo emergencial até que se complete o ciclo de um desenvolvimento natural.
Podemos culpá-lo por ampliar sua base de sustentação política com antigos inimigos do povo e com isso fragilizar seu ideário ideológico original. Mas nunca acusá-lo de colocar as riquezas naturais na trilha dos interesses das multinacionais, na verdade há um imenso esforço de colocar a exploração das riquezas sob a tutela do Estado ou de empresas genuinamente nacionais, como a exploração do Pré-sal. Apesar da violenta pressão do capital estrangeiro exercer para que o governo Lula continue o processo de privatização que foi detonado por Fernando Henrique Cardoso.
Não podemos é deixar com que o preconceito de classe, sobreponha a racionalidade e desenvolva o discurso racista, na qual Lula esta sendo objeto por parte de oportunistas decadentes, que o acusam de expressar opiniões espontâneas ou por discursar com um vernáculo que oculta algumas letras. Esses escorregões de linguagem é produto de um brasileiro comum que expressa às dificuldades encontradas no dia a dia de grande parte da população brasileira.
Como recado gostaria de ressaltar que o governo Lula, tem defeitos e enormes defeitos, mas se compararmos o seu governo com os que lhe antecederam, percebemos que os benefícios alcançados são superiores, no campo da saúde, educação, alimentação, distribuição de renda, recuperação da indústria brasileira e principalmente no orgulho de ser brasileiro.
Por isso, apoiamos o trabalho exemplar que a Policia Federal tem feito contra o crime organizado e a corrupção política, e pedimos que a judiciário agilizasse os processos legais contra políticos ladrões. E que o governo esteja mais próximo dos desejos do povo que hoje começa a se manifestar contra a corrupção endêmica que assola o país.

domingo, 22 de novembro de 2009

EMBRATUR ESTARIA TENTANDO UMA JOGADA DE MARKETING?


EMBRATUR ESTARIA TENTANDO UMA JOGADA DE MARKETING?


João dos Santos Filho

Como cientista social e turismólogo que milita academicamente com o fenômeno do turismo e hospitalidade a mais de vinte anos, não poderia esquecer as belíssimas aulas sobre a “história das ideologias”, do saudoso sociólogo e amigo Fernando Perrone na admirável ECA - Escola de Comunicações e Artes da USP. No começo da década de 80 em pleno embate entre as forças democráticas que estavam consolidando-se, e as forças dos porões da ditadura militar que persistiam em permanecer dominando.
Na verdade foi um período histórico em que a ECA sofreu, mas soube resistir e Perrone foi um desses professores, que por meio de prontidão em favor da democracia sabia dar as aulas dentro de um cunho crítico e esclarecedor para o entendimento da realidade social brasileira.
Foi pensando neste fato que fomos obrigados a refletir sobre a pesquisa “Perfil do Turista Estrangeiro e Imagem do Brasil” encomendada pela EMBRATUR ao Instituto Zaytec. Que segundo um dos resultados quantificados é extremamente impactante para a lógica do turismo nacional, pois com uma amostragem de apenas 2.405 entrevistas realizadas em turistas que vieram ao Brasil, deu que 45% dos entrevistados afirmam que o “melhor do país é o povo brasileiro”.
Parece que esse dado se constitui em um fato novo nas pesquisas deste campo,
merecendo cuidados especiais no que se refere; a delimitação do problema de pesquisa; a construção de hipóteses; a variáveis delimitadas, conceitos e tipologia. Pois a interpretação e a tabulação devem estar aliadas aos cuidados de rigor científico, que não pode ser confundido como meras pesquisas de opinião, que quase sempre são traduzidas pela rapidez das respostas de densidade emocional, provocadas pela intervenção de entrevistador mal treinado.
Como não temos acesso a essa pesquisa, somos obrigados a levantar essas questões e recordarmos do livro “A Mistificação das Massas pela Propaganda Política” do russo Serge Tchakhotine, traduzido por Miguel Arraes em 1967. Que discute com profundidade o poder das palavras trabalhado dentro do processo ideológico, que pode criar verdades imaginárias que acabam guiando a racionalidade humana. Além da existência de pesquisas realizadas na Universidade de Coimbra, sobre a imigração brasileira em Portugal constatou que os portugueses vêem a mulher brasileira relacionada ao sexo e a dos homens à falta de compromisso e à malandragem.
A EMBRATUR deveria fazer também uma pesquisa junto aos funcionários das operadoras brasileiras de turismo para verificar como as operadoras de turismo estrangeiras classificam e vendem os roteiros de praias da maioria do nordeste brasileiro, ou ainda verificar por que a maioria dos vôos charter se compõe de homens , que quando desembarcam no Brasil não possuem reserva em hotéis.
Por esses motivos de ordem metodológica e de mera observação do cotidiano do turismo no Brasil, questionamos os resultados da pesquisa “Perfil do Turista Estrangeiro e Imagem do Brasil” e indagamos, não seria mais uma das muitas jogadas de marketing da EMBRATUR.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Maringá cidade de Paul e Laura Lafargue


Maringá cidade de Paul e Laura Lafargue

João dos Santos Filho

Entrevistando as pessoas que chegavam à cidade de Maringá pela rodoviária nova, deparamos com um casal de turistas da história universal o médico cubano Paul Lafargue e sua companheira Laura Marx, filha do pensador Karl Marx. Estavam vindo da França com o objetivo de se estabelecerem em nossa cidade, ele apresentava sinais de cansaço por ter saído da prisão de Saint-Pélagie a menos de quatro dias e ela por ser filha de quem era, apesar de seu semblante, demonstrar as marcas de uma mãe que havia perdido três filhos por culpa exclusiva da falta de higiene nos hospitais e pela proibição absurda de usar amas de leite.
Estava radiante em conhecer o Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá e encontrar os marxianos sobreviventes da queda do muro. Imediatamente nos propomos a levá-los para a nossa casa, oferecendo a hospitalidade dos comunistas e admiradores que os respeitavam pelo seu trabalho de militante e de intelectual do lazer, turismo e do mundo do não trabalho. Muito gentilmente recusaram o convite, preferindo um hotel, resolvemos levá-los para o Bandeirantes pelo clima de nostalgia dos anos sessenta que o mesmo apresenta aos hospedes. Ao nos aproximamos do hotel houve uma sensação de familiaridade de nossos ilustres visitantes para com aquela estrutura, comentaram que a arquitetura recordava a parte americanizada da cidade de Santiago de Cuba na década de 60. Após conseguirmos as acomodações nos despedimos e marcamos para conversarmos pela manhã para ajudá-los em sua nova pátria.
De volta ao hotel, no dia posterior as nove da manhã, pudemos conversar e tomar um excelente café com Laura e Paul e conversarmos mais longamente sobre tudo e todos. De início elogiaram o verde da cidade, indagando se havia índios entre as matas, pois comentaram que em seu livro "O direito à preguiça" escrito em 1880 fizeram uma citação ao Brasil, relatando os costumes de seus primeiros habitantes. Em seguida perguntaram qual era a população da cidade, por mera coincidência o jornal "o Diário" que estava a disposição dos hospedes estava em nossa mesa e trazia em sua primeira pagina o resultado do censo 2000. Maringá havia contabilizado 288.467 mil habitantes. Espantados perguntaram qual era o numero e as condições das crianças e mulheres que trabalham nas fábricas, campos, comercio e serviços da região. Respondi que as condições eram semelhantes da Inglaterra do século XIX.
Em seguida perguntei a Laura sobre seu pai e com uma tonalidade de voz nostálgica, ela me disse que o Mouro estava em plena atividade intelectual e convivendo com suas doenças conhecidas por todos. Mas muito triste, por ter de ouvir interpretações errôneas de suas obras e ver seu nome sendo usado pelos sociais democratas com ares de comunistas. O que mais era preocupante para todos da família Marx é que Mouro tinha sentido demasiado a morte de sua mulher.
Imediatamente, procurei mudar de assunto, e reforçar as conquistas intelectuais de Marx. Quando perguntei sofre o manifesto comunista, ela me confidenciou que esse texto de seu pai e Engels, foi objeto de extrema perturbação para no cotidiano da família. Pois seus pais e suas irmãs sofreram a perseguição de agentes do governo belga que permaneceram vigiando os passos da família até surgir o pedido de expulsão. Laura comentou que Marx queria tomar satisfação com policiais. Engels teve que interceder e depois de duas horas de discussão conseguiu convencer Marx. Após tudo resolvido, Marx confidenciou a Engels que iria dar uma bengalada na cabeça desses agentes. Engels teve de ser duro com Mouro e não se agüentando começou a dar largas gargalhadas. Todos nós acabamos rindo do gigante de Trevéris e por conselho do General ( Engels ) resolvemos deixar Bruxelas e fomos morar em Paris.
Saímos do hotel e fomos para o centro da cidade, Lafargue demonstrava enorme interesse pela vida política em Maringá, perguntou-nos se o governo dos trabalhadores iria criar uma estrutura autônoma para ativar o lazer entre os trabalhadores. Eu lhe respondi que não, mas que o PT sempre foi um partido de ouvir as bases e que não tomaria decisões de cima para baixo. Lafargue ainda se ambientando no meio maringaense me interpelou, afirmando que tinha feito a escolha correta para morar. Mais uma vez, demonstrava entusiasmo em viver em Maringá.
Laura pensava em dar aulas de Francês e Inglês e ser professora da UEM, mas quando comentamos sobre o salário e a pratica da delação que havia sido implantada no interior da academia por parte de alguns grupos políticos, resolveu buscar novas saídas. Paul pensava em poder tornar seu sonho realidade, isto é, desenvolver junto aos trabalhadores um programa de lazer e turismo em que o município por meio de sua secretária de turismo estimula-se a criação de programas em parceria com as indústrias.
Comentei com Paul e Laura sobre os cadernos de Paris escritos por Marx em 1844 que são um marco para o estudo do lazer e do tempo livre, um texto pouco usado. Imediatamente Paul afirmou que esse foi um material fundamental para ele poder escrever "O Direito a preguiça". E completou sua idéia pedindo, para conversar com prefeito de Maringá. Será possível? respondi para ele, que iríamos tentar agendar para a semana.
* Os índios das tribos belicosas do Brasil matam seus inválidos e seus velhos; demonstram sua amizade pelo atingido pondo fim a uma vida que não se alegra mais com os combates, festas e andanças (Paul Lafargue. O direito à preguiça. São Paulo, editora Káiros, 1980. P. 26).