sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

TURISMO DO VÁCUO, NO PAÍS DE POLÍTICOS USUÁRIOS DO SISTEMA TURÍSTICO







TURISMO DO VÁCUO, NO PAÍS DE POLÍTICOS USUÁRIOS DO SISTEMA TURÍSTICO

João dos Santos Filho

Os estudos sobre a historiografia do turismo brasileiro têm revelado dados curiosos, que são objeto de debates e reflexões junto à academia. A história do turismo nacional ainda é pouco conhecida, e as relações pesquisadas estão muitas vezes longe de resgatar suas raízes autóctones, pois são dados tratados epistemologicamente com bases empíricas estrangeiras, um tipo de eurocentrismo moderno. Esquecendo-se que os ditos modelos teóricos para a implantação de núcleos turísticos se resumem a conclusões de cunho metafísico, sem levar em conta os padrões históricos societários nacionais, regionais e locais.
Isso nos leva a pensar o fenômeno do turismo como algo ligado exclusivamente ao desenvolvimento das forças produtivas capitalistas num viés economicista, em que o neoliberalismo acena para o turismo como um instrumento de crescimento puramente econômico para sociedades em geral. É nesta lógica que o sistema econômico sine qua non governa e acaba determinando aos centros de pesquisa e estudos a imposição de um modo quasi faciente de entender o objeto do turismo.
Para ultrapassarmos esse estilo acadêmico duvidoso e criticável, nossas pesquisas têm revelado que o fenômeno do turismo brasileiro possui uma historicidade própria, com imensa riqueza de dados empíricos. Como percebemos, a preocupação pelo turismo vai ocorrer:
Assim, em 1938, nascia à preocupação do governo Federal com o turismo no Brasil. Seria cômico se não fosse trágico, pois o mesmo foi pensado junto ao SIPS - Serviço de Inquéritos Políticos e Sociais, encarregado da coordenação de elementos informativos de interesse da polícia Preventiva. Atividades exclusivamente de controle ideológico em que a espionagem, a polícia secreta, a repressão a qualquer outro discurso que não fosse a ideologia do Estado Novo, formatavam as atividades desse órgão de informação e segurança nacional ( SANTOS
FILHO, 2008, p.108 ).


A incorporação burocrática e administrativa do turismo pelo aparelho de Estado se dá via a tonalidade policial, como um instrumento de apoio à ideologia dominante, fomentando a criação de eventos e tipos de atividades de lazer e culturais com o objetivo de fortalecer o “Estado Novo”. É desse período em 1938, que a Divisão de Imprensa e Propaganda – DIP cria a Divisão de Turismo e a coloca como instrumento privilegiado para a construção da imagem de Getúlio Vargas. E publica a primeira estatística sobre turistas estrangeiros em visita ao Brasil em 1942:

O movimento turístico, com a guerra e consequente diminuição do tráfego marítimo, ficou quase que reduzido aos naturais do Continente americano, notadamente argentinos, uruguaios e estadunidenses. Ainda assim, no ano passado, o Brasil foi visitado por 1.793 turistas dos Estados Unidos, 1.008 argentinos, 285 uruguaios, 101 ingleses e um menor número procedente de nacionalidades diferentes (CULTURA POLÍTICA, 1942.V.21, p. 185)

Assim, o fenômeno turístico será um instrumento usado pelo Estado para dar suporte ao processo de controle social da sociedade civil, com o objetivo de impor a lógica de uma sociedade política chamada “Estado Novo” que utiliza o poder de controle policial e a repressão para governar.
Esse processo se repetiu novamente em 1966 com a criação da EMBRATUR, dois anos após a ditadura militar, torna-se instrumento de “combate ideológico”, para tentar ir de encontro à imagem que a imprensa progressista estrangeira divulgava sobre o Brasil, denunciando a tortura, a prisão e o assassinato de brasileiros pelos militares golpistas. A EMBRATUR se caracteriza como uma estrutura responsável em divulgar o Brasil democrático, pró-americano e cristão, negando a ditadura militar com ares de um ufanismo nacionalista de direita.
Esses dois processos utilizam o turismo para garantir ao aparelho de Estado sua governabilidade, para isso usa e abusa da repressão e controle da sociedade civil desenvolvendo um modus operandi de combate a todos aqueles que ousassem criticar o regime militar ou mencionasse a falta de democracia no Estado Brasileiro, para esses algozes do poder todos são comunistas.
Essa genética histórica do turismo brasileiro ainda esta presente e permanece forte, mas com nomenclaturas diferentes, num país que entende o turismo como sendo uma atividade exclusiva dos estrangeiros, pelo menos o fluxo de dados coletados em sua totalidade são exclusivos do turismo receptivo. Os planos Nacionais de Turismo permanecem como esboços de um rascunho mal elaborado encima das necessidades extemporâneas de setores hegemônicos do trade turístico voltado para o turista estrangeiro.
Por não estar voltado prioritariamente para o desenvolvimento do turismo interno, não consegue formalizar nenhum plano voltado às necessidades nacionais e automaticamente fica fora das prioridades orçamentárias de governo. Transitando ou parasitando no lobby das emendas parlamentares, instrumento escroto e imoral da democracia neoliberal. Sem verba o Ministério do Turismo fica a mercê dos interesses de políticos que despejam suas emendas parlamentares, com a intenção de atender suas bases políticas que nada tem a haver com o turismo, ou contratarem eventos “turísticos”, “culturais”, partidários e até religiosos, em que as empresas contratantes apresentam alguma relação de parentesco ou de amizade com políticos ou funcionários da estrutura governamental.
Obviamente que o Ministério do Turismo, por mais que deseje, não se pode apresentar um planejamento de atividades baseados em um Plano verdadeiramente Nacional de Turismo, mas sim ficar na mão de políticos barganhistas. Que dominam a estrutura administrativa do turismo no governo Federal e fazem parte do folclore turístico brasileiro.
Na história do turismo brasileiro, encontramos inúmeros momentos caricatos cheio de humor, embalado pela idéia do sofisticado chiquê. Essa é a noção que alimenta o imaginário dos políticos curiosos, que sempre estiveram à frente dos órgãos públicos de turismo, uns mais dedicados a viajar, outros que faziam questão de elitizar a atividade para sair na coluna social, outros, ainda, servindo-se do cargo para galgar posições políticas maiores na área pública ou privada.
O turismo marca a idéia do lúdico, da viagem, do deslocamento, do divertimento e do descanso; tudo isso alimentado pela ideologia neopositivista de que essa é uma atividade reservada às classes abastadas e, portanto, a ênfase é para o turismo receptivo e não para o turismo interno.
A presidência da EMBRATUR e do Ministério do Turismo continuam sendo, palcos de disputa de políticos que indicam protegidos do partido, dos militares e dos meios de comunicação. Essa é uma prática corriqueira e comum no interior do Estado brasileiro que secundariza a competência profissional a favor do apadrinhamento político.



Bibliografia



CULTURA POLÍTICA. Revista Mensal de Estudos Brasileiros. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP. Ano II, n. 21, 10 de novembro de 1942.

SANTOS FILHO, João. O Turismo na era Vargas e o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP. Revista de Cultura e Turismo – CULTUR, Santa Cruz, ano 2, n.02, 2008.

3 comentários:

Sylvana K. Marques disse...

Professor, amo seus artigos, nem precisa dizer né? Tenho certeza que seus escritos chamam a atenção de muitos colegas!
Também amo a história, passei pelo mestrado de historia, com enfase me produção espacial e acho importantíssimo jogarmos a dimensao historica nos fatos desnaturalizando-os. Um beijo carinhoso e parabéns!

João dos Santos Filho disse...

Cara Sylvana ficou honrado com os elogios que fizeste a minha pessoa e espero poder sempre contato com voce e seu blog. O que precisar de mim é só solicitar, um grande abraço. João dos Santos Filho

Sara disse...

é um tema muito interessante e espero acéfalo que a viagem tem a chance de provar que eu estou apenas tentando obter um Aluguel em buenos aires